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Sete mulheres por minuto: números da violência doméstica reforçam alerta durante o Agosto Lilás

Presidente da Comissão de Defesa da Mulher revela números alarmantes da violência doméstica no Brasil

Por Neuza em 20/08/2026 às 18:04

 

Sete mulheres por minuto: números da violência doméstica reforçam alerta durante o Agosto Lilás

 

O Agosto Lilás, período dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher, coloca em evidência uma realidade que permanece entre os grandes desafios sociais do Brasil. Dados da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher 2025, do DataSenado, estimam que 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores ao levantamento.

A dimensão desse número pode ser compreendida também por uma conversão aproximada para períodos menores. Considerando os 3,7 milhões de casos distribuídos uniformemente ao longo de um ano, chega-se a cerca de 10,1 mil mulheres por dia, 422 por hora e sete por minuto. A conta é uma forma de dimensionar a magnitude do dado, e não significa que os episódios ocorram de maneira uniforme a cada minuto.

O levantamento do DataSenado ouviu 21.641 mulheres com 16 anos ou mais, em todas as unidades da Federação. A pesquisa apontou que 4% das brasileiras nessa faixa etária declararam ter sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores, percentual menor que os 7% registrados em 2023. Mesmo com a redução, o número absoluto estimado continua representando milhões de mulheres.

Em entrevista ao jornalista Luiz Oss, a advogada Gabriella Comper, presidente da Comissão de Defesa da Mulher, chama atenção justamente para a necessidade de transformar as estatísticas em compreensão sobre a dimensão do problema.

“Quando falamos em milhões de vítimas, às vezes não conseguimos dimensionar o tamanho dessa realidade. Mas quando percebemos que, a cada minuto, aproximadamente sete mulheres podem estar sofrendo algum tipo de violência doméstica ou familiar, entendemos que estamos diante de um problema gravíssimo”, afirma Gabriella.
Violência muitas vezes acontece diante de crianças
Outro dado revelado pela pesquisa mostra que a violência doméstica não permanece necessariamente restrita ao ambiente privado. Entre as mulheres que relataram ter sofrido violência nos últimos 12 meses, 71% afirmaram que havia outras pessoas presentes durante a agressão. Em grande parte dessas situações, as testemunhas eram crianças.

A pesquisa também aponta que a violência pode se tornar recorrente. Quase seis em cada dez vítimas relataram que os episódios aconteciam havia menos de seis meses, enquanto 21% conviviam com situações de violência há mais de um ano.

Os dados mostram ainda que existe uma diferença entre a violência vivenciada e a forma como ela é reconhecida pelas próprias vítimas. Segundo o levantamento, 33% das entrevistadas relataram ter vivenciado pelo menos uma das 13 formas de violência investigadas, embora parte delas não se identifique como vítima quando questionada diretamente.

Violência não se resume à agressão física
Para Gabriella Comper, um dos pontos fundamentais no enfrentamento do problema é ampliar a compreensão sobre o que caracteriza a violência contra a mulher.

A Lei Maria da Penha estabelece diferentes formas de violência doméstica e familiar, entre elas a física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Isso significa que comportamentos como ameaças, humilhações, controle, constrangimentos e retenção ou destruição de bens também podem integrar o ciclo de violência.

“É importante que as mulheres reconheçam os diferentes tipos de violência. Muitas vezes, a violência psicológica, o controle, a humilhação, a ameaça e a violência patrimonial são naturalizados, mas também fazem parte desse ciclo de violência”, explica a advogada.
A informação, nesse contexto, torna-se uma ferramenta importante para que a vítima consiga identificar situações abusivas e tenha condições de procurar orientação e apoio.

Feminicídio representa a face mais extrema da violência
Quando a violência chega ao extremo, o resultado pode ser o assassinato de mulheres por razões relacionadas ao gênero. Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, apontam que o Brasil registrou 1.470 feminicídios em 2025, uma média de aproximadamente quatro mulheres mortas por dia. O número representou o maior registro da série histórica disponível até então.

O dado evidencia que a violência letal continua sendo uma realidade grave no país. Os números também precisam ser observados em conjunto com as demais formas de violência, já que o feminicídio pode ocorrer dentro de contextos marcados por agressões, ameaças, perseguições, controle e outras formas de abuso.

“Os números de feminicídio também são extremamente preocupantes. Estamos falando de 1.470 mulheres assassinadas em 2025. São aproximadamente quatro mulheres mortas por dia em razão de uma violência que, muitas vezes, acontece dentro de uma relação de proximidade e confiança”, destaca Gabriella.
Agosto Lilás reforça uma responsabilidade que deve durar o ano inteiro
O Agosto Lilás tem papel importante ao ampliar a discussão pública sobre a violência contra a mulher e estimular ações de prevenção e enfrentamento. No entanto, especialistas e instituições que atuam na área defendem que a mobilização não deve se limitar ao mês de agosto.

A dimensão dos dados reforça a necessidade de políticas permanentes de prevenção, acolhimento, proteção e responsabilização dos agressores, além do fortalecimento da rede de atendimento às vítimas.

“Esses números reforçam que a violência contra a mulher continua sendo um grave problema de saúde pública e de direitos humanos. Precisamos falar sobre violência contra a mulher durante todo o ano. O Agosto Lilás é fundamental para dar visibilidade ao tema, mas a prevenção, o acolhimento e a proteção precisam ser permanentes”, enfatiza Gabriella.
A própria pesquisa do DataSenado mostra a importância das redes de apoio. Em parte dos episódios testemunhados por outras pessoas, não houve intervenção de quem estava presente, o que evidencia a necessidade de ampliar a informação sobre como identificar situações de violência e como agir de maneira segura.

Informação pode ajudar a romper o ciclo
Os números apresentados durante o Agosto Lilás não representam apenas estatísticas. Por trás de cada registro existe uma mulher que pode estar vivendo uma situação de medo, dependência, ameaça, agressão ou controle.

Nesse cenário, o acesso à informação, à orientação jurídica e aos serviços da rede de proteção pode ser decisivo para que a vítima consiga reconhecer a violência, buscar ajuda e romper o ciclo de agressões.

“É preciso que a mulher saiba que não está sozinha. Informação, acolhimento, orientação jurídica e uma rede de proteção eficiente podem fazer a diferença para romper o ciclo da violência e garantir uma vida com segurança e dignidade”, conclui Gabriella Comper.
Os dados nacionais reforçam, portanto, que o enfrentamento à violência contra a mulher exige continuidade. O Agosto Lilás amplia a visibilidade, mas a prevenção, a proteção e o acolhimento precisam fazer parte de uma atuação permanente do poder público e de toda a sociedade.

Fonte: Por; Luiz Oss

Tags:   Agosto lilás violência contra a mulher
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