
Duas décadas após um dos crimes de maior repercussão do extremo sul da Bahia, a morte do ex-prefeito de Vereda, Francisco Silva Passos, conhecido como “Carlito Tanajura”, ainda permanece sem uma resposta definitiva da Justiça. O ex-gestor foi assassinado de forma brutal dentro da própria casa, na comunidade de Cruzeiro do Sul, conhecida como “Bode”, zona rural do município de Vereda.
Figura popular e de fácil convivência, Carlito ganhou o apelido de “Tanajura” quando trabalhou como gerente de uma fazenda na comunidade de Massaranduba. Com forte ligação com a população mais humilde, entrou para a política e foi eleito prefeito de Vereda no ano de 1996, administrando o município por dois mandatos consecutivos, tornando-se o segundo gestor da história da cidade após a emancipação do município.
Durante sua administração, Carlito ficou conhecido por desenvolver ações voltadas às famílias mais carentes. Mas foi justamente uma decisão tomada em favor da população que, segundo as investigações, teria motivado sua execução.
O conflito teve origem após a desapropriação de uma área pertencente ao empresário Manoel Francisco da Mota, o “Chiquinho”, proprietário do Posto Pioneiro. No local seria implantada uma cooperativa de piscicultura destinada a gerar emprego e renda para moradores da região. Mesmo com o pagamento de um valor considerado acima do praticado à época, a medida provocou revolta no proprietário e em familiares.
De acordo com as investigações conduzidas pelo então delegado André Luiz Serra, já falecido, o crime teria sido arquitetado friamente após o fim do mandato de Carlito. Segundo a polícia, Jânio Pereira Leal, genro de Chiquinho, teria contratado Escielis Correia Pinto, conhecido como “Helinho da Farinheira”, que por sua vez teria intermediado a contratação do pistoleiro Geferson Pereira da Silva, também chamado de Daniel e conhecido pelo apelido de “Chapéu”.
As investigações apontam que o executor chegou à comunidade de Cruzeiro do Sul fingindo ser vendedor de peixes, numa suposta referência irônica ao projeto de piscicultura que teria motivado o crime. Ainda segundo a apuração policial, o suspeito foi recebido na residência do ex-prefeito, tomou café com a vítima e, em seguida, efetuou um disparo na cabeça de Carlito, fugindo logo após o assassinato.
Passados 20 anos, apenas Helinho da Farinheira chegou a sentar no banco dos réus. Sempre alegando inocência, ele foi absolvido nesta terça-feira (19) pelo Conselho de Sentença da Comarca de Itanhém, que considerou insuficientes as provas apresentadas pelo Ministério Público para condená-lo por participação no homicídio.
O caso ganhou repercussão nacional ao ser exibido no programa Linha Direta, da Grupo Globo, e se transformou em símbolo da demora da Justiça em crimes políticos na região.
Manoel Francisco da Mota, o “Chiquinho”, morreu sem ser julgado. Já Jânio Pereira Leal e Geferson Pereira da Silva, o “Chapéu”, continuam foragidos.
Vinte anos depois, familiares, amigos e moradores de Vereda ainda convivem com a dor da perda e com a sensação de impunidade diante de um crime que marcou a história política do extremo sul baiano.
